Xadrez.

Você ouviu a intensidade de minha

Maria Bethânia

E você já sabia da tática,

hábil propaganda verdadeira:

não manipular sua libido,

pra deixar a libido ser madurada,

em sua necessidade e tempo

Avançou apesar do grito de alerta,

As peças de xadrez pro alto:

ouverture


Obra de Tatiana Parcero

eu faria mapa para cada dor sua:
rastrear e contornar,
delimitar a erosão,
acercar o desastre anti-natural

entraria em toda sua fundura,
tateando com os pés,
usando da água e do seu vício.

à disposição toda tecnologia afetiva:
ervas, emplastro e saliva
- mapear e estancar a erosão -

faria caligrafia:
as letras da tua história desenharia
- contar e recontar -
fala / cura

te banharia na quentura,
recolheria todas as cicatrizes,
na ponta dos dedos.


Soutine — Pedaço de um bife (1922–1923).

ao apertar de um botão está o rasgo:
a falta de intimidade.
(o botão é a medida do desejo?)

há uma aproximação artificial,
dispara-se a ansiedade,
percorrem-se os botões como quem
dá uma nota:
0-10
like, superlike

aonde se quer entrega
se vê menu
aonde se quer delicadeza
se vê debut
aonde se quer tenderness
se vê tinderness
se vê tender, chester
(e outras carnes)


Meu afeto feito
A visão de você e nossa gata na janela,
À espera


era amor
Ou quase
Depois, era cal:
pás e pás tornando corroída
minha certeza

tinha aquela imagem
Tão propagada por aí
Aquelas palavras sem peso
Custo a ver as imagens vulgares
(Daquelas pros outros, esses outros espectrais, espetaculares)

era mel, mel, fel
daquela mutação de diss(abor)
(o sabor dito é muito menor que
o sabor sentido)

era o jogo perverso:
juntou maltrato com amor
como se fosse rinha de
gatas
quem ganhou com as apostas?
(eu abri mão de ganhar)
(mas eu ganhei)

era gozo perverso:
"vai ser a última vez"
(Freud revisitado)

eu tive de nomear na minha cabeça…


Anace Lima — Algo quebrou-se (2020).

eu dei meu corpo
todos os minutos de um dia:
o tempo da órbita da terra ao redor do sol
vários tempos
incrononetráveis

meus olhos pra saber cada minúcia
Do seu desejo

eu desejei teu desejo
desejei, eu, seu-desejo
mas
não
apenas desejei

isso,
apenas desejar na abertura
do ponto da minha objetiva
lente

dei também todas as desculpas possíveis
para cada falha sua
cada caco, cada teco

até meu desejo ser
pouco eco
do seu

até
O
oco


Anace Lima –Sem título (2019).

beijo entre-carros

e

depois

o dia todo transcorrido

todo tingido de uma

tensão

amarelo cádmio

e

depois

você me devolve

o abismo

nos

meus

olhos

me lanço na narrativa-refletida

dessa

incógnita

você deita em minha cama,

acomoda-se rapidamente

nas minhas pálpebras,

junto com ladrilho branco

e

poros eriçados.


Anace Lima — Camisa de mãe (2020).

eles tentam vergar

nosso

corpo-e-espírito

com sua razão

não há dialética

há monolito:

interdição

eu não vou conformar

pensamento

à

dominação

(eu sei de meus olhos

que espelham

a

súpera beleza)


Anace Lima — Gozo (2018).


tua feição foi sonho:
miragem, areia ocre
febre, sal…

depois nada
desmesura de tudo

eu sempre em busca da mordida
da fruta madura
sempre fresca, sempre outra
nova fruta

eu tenho sabor de mangarataia
Ou raíz e cura

eu sou a densidade aquosa e roxa
Ou a bebida das deusas

você sabe,
leite e mel escorrem das minhas pernas, sem roçar
dando-se.
de onde tem, vem mais e mais
sem fim.

Anace Lima

⚡ Transdisciplinar. linktr.ee/anacarolinalima

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