Era um, eram dois, eram cem pessoas mais ou menos. Verde, cinza, azul e amarelo sol. Aquela arquitetura moderna nos deixava à mercê do céu amplo. Eu estava lá junto com amigas na Praça dos Três Podres Poderes. Via lésbicas sentadas no gramado, pessoas segurando bandeiras: todas nós protestando pelos (nossos) direitos LGBTIQ+. Nós, uma pequena multidão no meio do gramado do imenso vão do Planalto Central do país.

Fomos surpreendidas por um homem de terno que aproximou-se. Era um homem branco de meia-idade, aparentemente hetero e relacionado à política institucional, o que se podia observar pelo caminho que ele havia percorrido até nós. Nós, uma pequena multidão no meio do gramado do imenso vão do Planalto Central do país.

Ouvimos vagamente seus xingamentos para nós. Logo, imagino as ofensas comumente dirigidas: sapatonas, travecos, viados, vagabundos, desocupados…Aproximo-me um pouco mais. A multidão logo se alvoroça no afã de responder àquele homem. O que é senão ódio o que leva aquela pessoa a desviar de seu caminho para ofender desconhecidas? Gritar a esmo, provocar gratuitamente… Ofender.

Estávamos diante da imprensa, quase imóveis. Qual seria a manchete caso decidíssemos agredir àquele homem?

Agredir não, desculpe pelo termo: revidar.

Responder.

Reagir.

Ainda sim, imputariam-nos a culpa. Alguém chegou a verbalizar: não podemos bater nele. O que sairia nos jornais?

São detestáveis os altos valores dos adeptos do oferecer a outra face. São os paladinos dos bons modos, os guardadores da etiqueta. Aqueles que não tem sentimentos ruins, bons de coração. Aquela gente boa com muita “urbanidade” em suas ações. O cidadão de bem, enfim:“gente civilizada”.

É como se houvesse uma falsa simetria, como se pudéssemos pesar essas ações opostas com o resultado igual: 3 kg de ódio para cada um dos lados. O que aconteceria seria a sórdida invenção (inversão):

Homem é agredido por multidão furiosa na Esplanada

Homem é assassinado por militantes raivosos

Homem é…Homem é…Homem é…

Esse homem valeria essa imagem? Ainda que injusta, não podíamos reagir,

arrostar,

contrapor-se,

enfrentar,

insurgir-se,

lutar,

obstar,

obviar,

opor-se,

resistir,

protestar.

Ao menos não como gostaríamos, como deveríamos. E se?

Escolhemos. Aquela imensa multidão depois de 2 ou 3 minutos em sintonia ponderou e continuou apenas respondendo grito a grito, olho a olho.

E se aquele homem fosse uma multidão? O que ele faria conosco?

Aquele homem era um capitão reformado, político eleito através de diferentes partidos ao longo de sua carreira. Em março de 2016 ele foi anunciado como pré-candidato à Presidência do Brasil pelo PSC. O resto da história você já sabe e está sendo escrita agora.

E se. E se…E se a gente reagisse agora?

⚡ Transdisciplinar. linktr.ee/anacarolinalima

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